A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS & ENVELHECER E MORRER - NORBERT ELIAS


"A morte é um tabu enraizado nas sociedades ocidentais avançadas, e lidar com ela — e com os moribundos — representa dificuldades extremas para muitas pessoas. Este contundente ensaio de Elias analisa a morte e o ato de morrer e, mais importante, a reação dos vivos diante dessa realidade. Evitando o jargão filosófico, o autor aponta a grande contradição de nossa época: a morte tornou-se mais asséptica, mas a solidão dos moribundos aumentou. Os vivos não conseguem demonstrar-lhes afeto justamente quando este se faz mais necessário. Ao buscar entender o sentido da morte — e o sentimento que ela provoca — Norbert Elias enriquece a discussão dos processos civilizadores e das bases de nossa sociedade. "Envelhecer e morrer" é uma versão revista de uma conferência apresentada em um congresso médio em Bad Salzufen em outubro de 1983."

Informações Gerais:
Ano: 2001
Páginas: 112
Editora: Zahar
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Minha nota:



A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS
A morte é um mistério e difícil é aceitar que indica apenas o fim da vida, pois nós humanos acreditamos ser “imortais”. A Morte se torna um problema social quando os vivos não se identificam com os moribundos, ou seja, pessoas que já perderam a vontade de viver.
Simplesmente pelo fato de saber muito sobre a morte é que ela se torna um problema, visto que somos os únicos seres que possuem tal conhecimento, já que os outros animais, apenas vivem sem saber qual dia ou hora será o seu fim.

Com a evolução das sociedades, o homem passou ser mais preocupado com a segurança e mais previsível em relação à vida; então crenças e ritos religiosos já não bastavam na busca da vida eterna. Melhor dizendo, a morte deixou de ser a preocupação central, e sim, o “que” ou “quem” a causaria. Caberia nesta explicação à frase de Thomas Hobbeso homem é o lobo do próprio homem”, já que se transferiu o medo do “objeto” para o “sujeito”.

Ao dizer que a morte é “recalcada”, o autor refere-se aos dois sentidos: individual e social. A forma individual é um mecanismo de defesa psicológico adquirido por experiências de infâncias traumatizantes que influenciam no sentimento, comportamento e memória da pessoa, e a forma social coloca a morte e os moribundos em isolamento, criando sentimentos de vergonha, desprezo e repugnância, porque “a morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte” (Norbert Elias).

A Morte era retratada pelos poetas e pintores como um fim sereno e calmo, mas dependendo do caso, os moribundos eram tratados com muito descaso. Outro aspecto que contradiz tudo isso era o medo da punição após a morte, medo do inferno, que a igreja propagou entre os povos da Era Medieval. Com isso, os ricos tentaram comprar sua salvação e os pobres tinham que perseverar na oração; mas nenhum deles podia garantir uma morte tardia, previsível e menos dolorosa, como acontece hoje em dia. As crianças não tinham, e continuam não tendo, conhecimento sobre o significado de morrer, pois seus pais temem que eles vivenciem o que já passaram e isto é outro fator que “recalca” a morte.


Nos dias atuais os cemitérios e as sepulturas passam por uma tentativa de neutralização, se possível são até evitados, pois a cada dia a sociedade tenta distanciar os corpos dos mortos na ideia que eles possam ter um “bom descanso” e isso fez que a morte se tornasse mais comercializável para que os clientes fiquem o mais “protegido” possíveis e que os vivos se distanciem deles, apenas ficando boas memórias e recordações. Nos túmulos o que será mais relevante são as lápides, onde datas de nascimento e morte se tornarão uma mensagem para os que ficam, “foi nesse período que marquei minha presença”.

Estamos nos tornando seres mais individualistas e o fim da vida é de difícil aceitação, mas o fato é que nossas atitudes vão delimitar como vai ser as sociedades futuras e como as novas gerações irão encarar este dilema que é a não existência da vida eterna, ou seja, a continuidade do homem de amanhã, depende de nós, homens de hoje, por isso devemos parar de encontrar meios de fuga, como a imaginação que o filósofo Freud sustentava e encarar isso mais de frente. Dizer aos mais novos que o ente querido está em “um lugar melhor” ou que “ela/ele virou uma estrelinha” não vai mudar em nada o recalcamento e encobrimento da morte que vem desde anos atrás e só passou por diversas mudanças, com a evolução das culturas.

Outro tema biossocial que pode ser abordado e comparado com o já discutido aqui, são os tabus sexuais que também passaram por certa desmistificação, e cada vez mais é discutido em rodas de amigos, escolas e até mesmo com crianças, mas com essas ainda de forma fantasiada. Essa maior abertura foi fazendo que o homem tivesse mais autocontrole sob seus instintos e pode até citar uma ajuda no conhecimento de doenças sexualmente transmissíveis. A comparação com a morte cabe, pois os dois temas sofrem com o recalcamento e tudo isso vai variar para cada tipo de cultura levando em conta aspectos culturais de cada sociedade, mas é fato que temas sexuais ainda são mais fáceis de abordar do que a morte e isso se deve ao fato de que todos temem a morte antecipadamente e acabam perdendo tempo com isso.

Estamos passando por um processo tão grande de individualização, que desde o período do Renascimento, acreditamos que a “melhor morte“ é a solitária, mesmo que ao decorrer da vida estivéssemos rodeados de pessoas que nos amasse, o sentido de morrer sozinho pode variar da intenção de não querer fazer que sofram os que ficaram comigo em vida ou até um pensamento de extinção de tudo que fomos e fizemos.

A verdade é que a morte não é um “bicho de sete cabeças”. O que dói para nós que ficamos é a saudade de alguém que foi amado ou a dor que passam os excluídos e moribundos. A morte faz parte do ciclo natural da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Não existe cura para ela, o que se pode fazer é cultivar laços e coisas boas durante a vida, e aproveitar de forma sensata todo tempo que nos foi dado, pois o que realmente fica foi aquilo que fizemos para o próximo e se a humanidade acabar, tudo isso não terá mais sentido algum.


ENVELHECER E MORRER
O Sociólogo alemão Norbert Elias trabalha o início do texto “Envelhecer e Morrer: Alguns Problemas Sociológicos” mostrando como a velhice pode ser um estigma. O autor coloca que isso pode se dar por conta da dificuldade das pessoas mais novas em se colocarem no lugar de um idoso, já que o processo de envelhecimento ou a própria experiência em envelhecer é um tópico pouco questionado.

Com a chegada da velhice, a pessoa torna-se mais excluída. Talvez o correto fosse dizer que a sociedade é excludente com aqueles que já não podem contribuir ativamente, tornando assim, os idosos excluídos socialmente. Nesse ponto, Norbert cita o aumento de instituições especializadas ao cuidado do idoso (os asilos), na sociedade contemporânea.

No texto, a falta de empatia é utilizada nas entrelinhas, inconscientemente, já que o autor prega muito a dificuldade das pessoas em se colocarem no lugar do próximo, sendo essa a possível resposta para o abandono dos mais velhos perante a sociedade. Também há colocações da evolução do homem para com a ciência, e o porquê da utilização de conhecimentos fantasiosos, como amuletos, sacrifícios, entre outras formas, que poderiam explicar o resultado ou cura de uma doença, principalmente no medievo. Porém alguns desses conhecimentos se perduram até os dias atuais. Isso é explicado pela falta de conhecimento científico da época. Com o aumento desse conhecimento científico, o saber sobre os aspectos biológicos do envelhecer e o morrer aumentou muito, o que deu a possibilidade de aumentar o tempo de vida da pessoa.


Norbert coloca duas barreiras ou obstáculos para a orientação humana: a primeira, o fato do homem não ter atitude para agir, e assim deixar com que alguém faça isso por ele, ou então que a vida siga seu fluxo natural. O segundo obstáculo está no reconhecimento da esfera de mudança duradoura e não planejada, processos que acabam se tornando incontroláveis. Também é visível a crítica do autor em relação à falta de contato dos mais novos com a morte, a omissão dos pais com o assunto.

No final do texto, o autor coloca duas questões, que, por um lado, a família no leito do moribundo, trazendo bem estar a ele, e fazendo com que diminua a sensação de abandono. Por outro lado é colocado em questão com o livro de Glaser e Strauss Tymer for Diyng (Chicago, 1968), os riscos que a família ou responsáveis pelo moribundo, visitando-os, podem trazer, como bactérias ou infecções. Dando continuidade na questão entre bem estar x higiene hospitalar, possivelmente alguém em seu leito escolheria estar com aqueles que ele tem laços afetivos, do que numa UTI toda equipada com vários médicos prontos para atender.

Norbert Elias traz questões que até certo tempo atrás, praticamente não eram debatidas ou estudadas. O modo como o autor coloca questões relacionadas ao envelhecimento nos faz questionar sobre nosso papel, não apenas como cidadão, mas também como filho, neto ou bisneto. O autor ao estabelecer sua própria experiência tanto como jovem que olha um idoso, ou então como um próprio idoso, nos faz pensar e olhar com mais humanidade para aqueles que já contribuíram tanto e que continuam a contribuir para nossa sociedade.

Em relação aos moribundos, ao final do texto, o autor nos faz pensar sobre a difícil questão de morrer abandonado em um hospital ou na sua residência com seus familiares. Como o próprio texto diz, os problemas a cerca dos moribundos ainda precisam ser trabalhados e discutidos, para que um dia a sociedade possa tratar com mais zelo àqueles que não têm mais tempo de vida.


A resenha acima foi escrita por Vítor Sato e Vinicius Silva e postada mediante autorização de ambos. Obrigada!

Beijos e até a próxima leitura!

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