O GOLPE DO ANIVERSARIANTE - WALCYR CARRASCO

"Como confessa o próprio Walcyr Carrasco, é na loucura cotidiana que ele busca a graça de suas crônicas. Personagens e cenas que fazem parte do nosso dia-a dia, como a nova geração de crianças viciadas em videogames, ou o constrangimento de encontrar e não lembrar de alguém conhecido, transformam-se em alvo de boas risadas do leitor graças ao olhar agudo e à crítica mordaz de um dos mais divertidos cronistas da atualidade."



Informações Gerais:
Ano de Lançamento: 2003
Número de Páginas: 128
Editora: Ática
Como obter: http://www.saraiva.com.br/para-gostar-de-ler-o-golpe-do-aniversariante-vol-20-3-ed-2003-148166.html

Minha nota:

    Esse é um livro muito divertido, com uma leitura muito leve e rápida. São crônicas muito bem escritas, crônicas que já foram publicadas em jornal e além de ter fazer rir, traz reflexões sobre assuntos do nosso cotidiano, que muitas vezes não notamos, não damos importância. Os assuntos abordados nessa coletânea são, dentre outros, metalinguagem, amigos, parentes, férias, festas, relacionamentos, modernidade, consumismo. A crônica que vou transcrever aqui foi uma das que eu mais me identifiquei, que eu mais gostei. 


Boticão de Ouro
     Tenho horror a dentista. Sinceramente, acho que todo mundo tem. Penso até que eles sentem um prazerzinho sádico quando a gente aterrissa no consultório com expressão horrorizada e pede um orçamento. Quem se acostumou com nervo exposto não treme diante de carteiras doloridas. Já passei pela mesma cena vezes sem fim. Chego. Aguardo numa sala com dois ou três outros sofredores, lendo revistas velhas. Nunca são novas. A secretária anuncia que cheguei. Ele manda esperar. Ponho a mão no lado que está doendo, quem sabe ajuda. Ouço risadas no consultório. Tenho ódio. Como ele pode rir enquanto sofro? Finalmente, é minha vez. A dor parece diminuir. Penso em sair correndo. Abro a boca. Ele pega uma ferramenta pontuda e começa a escavar meus dentes. Todos. Descobre, alegremente, novos pontos doloridos. A cada gritinho, ele sorri, sábio. Até que chega à razão da minha vinda. Espeta. Quase pulo na cadeira. 
     - Doeu? - ele pergunta com um sorrizinho sádico. 
    Começa a falar numa coroa de ouro. Pergunto se é monarquista. Não. Quer coroar meu dente. Enfim, me espeta de novo. Com o preço. Pergunto:
    - E sem anestesia, quanto é?
    Ele devolve:
    - Esse preço é sem recibo.
    Porque, hoje em dia, a gente paga a mais se quer recibo. Como se a decisão de sonegar fosse minha, não dele.
    Outro dia, uma amiga comentou:                         
    - Comprei um Monza!
    Quis ver. Ela apontou a gengiva.
    - Está aqui dentro.
    Verdade. Foram tantas pontes, viadutos e desapropriações que, se algum prefeito apresentasse ritmo igual, construiria uma nova avenida por semana. Outra amiga ficou seduzida pelo implante de dente. Tanto poupou que pôs dois incisivos na arcada superior. Os pinos, que seguram os dentes, foram encravados nos ossos e chegam até o nariz. Se mastiga forte, ela espirra.
     Tive um dentista durante oito anos. Ficava em um simpático bairro de classe média. Enquanto o motorzinho chiava (ah, como odeio o motorzinho), contava piadas. Cada vez que eu ia rir, porém, me reprimia:
    - Não mexe a boca.
    E contava nova piada, deliciado. Muitas vezes tive vontade de fazer uma loucura. Amarrá-lo na cadeira e tratar eu mesmo seus dentes, um por um. Queria ver se acharia tanta graça no tal motorzinho. E, para completar, faria cócegas quando ele estivesse no meio de uma obturação. Só para ele sentir o efeito das piadas. 
    No Plano Collor, tudo acabou. Eu havia pago um novo tratamento, quase integralmente, uma semana antes do sequestro da poupança. Quando voltei para a consulta, ele revelou: não tinha depositado o cheque. Queria que eu trocasse por um novo. Lembrei que éramos cúmplices na mesma tragédia. Ele interrompeu o tratamento na hora e me deixou um canal aberto. Contei a história a um amigo, dentista, que ficou chocado:
   - Mas ele aceitava cheque?
    Dentistas recebem muitos cheques sem fundo e preferem dinheiro vivo. Ou dólares. Mas a culpa também é dos clientes. Descobri um dentista justo, em um bairro com casinhas italianas. Preços ótimos. Seu consultório, numa casa velha, abriga o raio X dentro de um armário embutido. Quando está de bom humor, me presenteia com um vidro de sardella, que ele mesmo faz na cozinha anexa ao consultório. Tem poucos clientes. As pessoas se assustam com a aparência exausta das instalações. 
    Cheguei à conclusão de que talvez os dentistas estejam certos ao incluir um tapete persa em casa obturação. Se os clientes fazem tanta questão de decoração, talvez seja justo pagar por ela.

O autor:

Escritor, roteirista e dramaturgo, formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Walcyr Carrasco estreou no SBT, na década de 80. Escreveu novelas como: "Xica da Silva", "O Cravo e a Rosa", "Chocolate com Pimenta", "Alma Gêmea", "O Profeta", "Sete Pecados", "Caras e
Bocas", "Morde & Assopra". Em 2012, Walcyr foi responsável pelo remake da obra de Jorge Amado, "Gabriela", em homenagem ao centenário do escritor baiano. Por muitos anos, trabalhou como jornalista nas revistas "Veja" e "Isto É" e nos jornais "O Estado de São Paulo", "Folha de São Paulo" e "Diário Popular", além da revista infantil "Recreio". Estreou como autor no teatro com a peça "Batom" em 1995, e também escreveu livros, dentre eles: "Quando Meu Irmãozinho Nasceu", "Vida de Droga", "O Menino Narigudo", "Meus Dois Pais", "Pituxa, a Vira-Lata" e "A Ararinha do Bico Torto."
Beijos pessoal, até mais :*


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ESSE POST FAZ PARTE DO DESAFIO LITERÁRIO 2015
TEMA 6 - AUTOR BRASILEIRO

Comentários

  1. Olá Heloísa!

    Gostei muito deste conto do dentista, tem uma certa verdade, acho que todos eles são mesmo sádicos hehehehehe. Porém para achar um bom, meu Deus!!! Como é difícil, e dá até medo neh??
    Foi uma boa escolha o livro, gosto de livros de contos assim. São divertidos. =D

    Te convido a conhecer meu blog (embora eu ache que já tenha passado por aqui antes hehehe)

    http://meninadeparis.com

    Beijos

    Dayana

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    Respostas
    1. Que bom que gostou Dayana :) vou confessar que me identifico com esse conto em especial, porque sofro demais com o meu dentista.
      Sobre o seu blog, eu sigo e recebo todas as atualizações por email. Gostei muito das suas postagens. Beijos !

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  2. Oie, Helo!
    Finalmente respondi após dois meses. Não pense que sou arrogante, ou que a ignorei. Eu realmente não vi. Então vieram os testes, os trabalhos e provas, que tornaram tudo mais difícil. Só hoje, por ter feito a última prova na sexta, estou podendo responder os comentários com mais calma. Espero que você me perdoe. Já estou seguindo seu jardim.
    Sobre o seu post, eu amei demais. Nunca dei atenção ao Walcyr. Na verdade ouvia falar dele, mas jamais me liguei que fosse escritor, acredita? E pelo conto do Boticão, já me apaixonei. Pretendo comprar a coletânea para meu irmão de 13 anos. As crônicas parecem suficientemente engraçadas e curtas para entretê-lo na leitura!
    Com carinho,
    Celly ❤

    http://melivrandoblog.blogspot.com/

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    Respostas
    1. Oii Celly, tudo bem. Você não foi arrogante nem nada do tipo. De maneira alguma você precisa se desculpar. Walcyr Carrasco é bem conhecido pelas novelas da Globo que ele escreve e dirige, confesso que não conhecia todos os livros de autoria dele. Mas esta coletânea de crônicas foi bem estimulante, no sentido de querer conhecer mais as obras dele. Espero que você e seu irmão também gostem. Boa leitura pra vocês !

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