VOCÊ CONHECE: BERNARDO PELLEGRINI? [2/4]

ENTREVISTA PARA A REVISTA COYOTE [PARTE I]




1. Como a música surgiu na sua vida?

"Sempre fiz música. Compor é uma paixão. Meu irmão, Clério, começou a aprender violão e eu ficava ali, olhando. Tinha a coisa de viver no hotel de meus pais, minha família vivia numa frente de colonização louca que era o norte do Paraná, para onde vinha gente do mundo inteiro. Lembro dos mascates coreanos, italianos e libaneses vendendo farnel de tecido, e toda noite, quando o pessoal se sentava na varanda do hotel, saía cada conversa interessantíssima... Eu tive um Mil e Uma Noites muito particular ali, na infância. Muitos hóspedes tinham violão, meu irmão tocava e eu vi minha chance de me exibir, de aparecer. Então aprendi o básico e já queria fazer sucesso com a turma (risos). Acho que é meu espírito rock'n'roll. Meu irmão era um compositor sofisticado, compunha bossa-nova, conhecia aqueles acordes mais difíceis, aquela harmonização de samba que nasceu com a bossa-nova, e eu sempre aprendendo com ele."


2. O que você ouvia na sua casa?

"Bom, meu pai era um cara formado pela Rádio Nacional, que ele ouvia desde criança. Ele conhecia todos os sambas, tudo de Dorival Caymmi, Ari Barroso, tudo o que o Silvio Caldas cantava. Já minha mãe era valseira, gostava de Strauss... Como morávamos num hotel, tínhamos música ambiente. Era eu quem comprava os discos para gente tocar. Então esse foi o ambiente. E depois vieram os festivais, quando a canção ainda tinha um status. Chegava O Estado de São Paulo com matérias e eu via os hóspedes comentando as letras, quem tinha que ganhar, aquilo virava um fórum. A canção ainda tinha esse status, e era aquilo que eu queria fazer, tinha o desejo de estar naquele universo. Na mesma época, comecei a escrever contos, poemas. Eu via as peças do meu primo Domingos Pellegrini, e comecei a fazer teatro, a ler muito. Então, quando decidi trabalhar em jornal foi pensando em desenvolver isso, que era algo que o jornalismo moderno permitia. Deixei o jornal Panorama e fui para a Folha de Londrina, com a Joana Lopes, que fazia o Brasil Mulher, o primeiro jornal feminista do Brasil. Eram pouquíssimas as publicações legais de cultura naquela época, o jornalismo ainda era bastante antiquado. Depois fui para São Paulo ser jornalista de cultura, que era o meu sonho. Era um momento de busca de linguagem, do jornalismo como uma linguagem popular, como linguagem de expressão do Brasil. A visão do jornalista como um neurônio social, o que carrega a informação, cujo papel não é julgar, mas trazer a informação, o material para que as pessoas tenham uma visão sofisticada da vida, para ajudar você a viver, a fazer escolhas, a conhecer outras coisas, outras visões, e não trazer a informação resolvida e utilitária (você pode pegar uma pessoa simples, mas se ela lê jornal, ela se integra ao mundo). Era uma época em que os jornais influenciavam o país."

3. O que é canção para você?

"A canção é um momento alto do Brasil. Ela organizou a palavra falada brasileira. Por isso, foi muito mais através das canções do que do texto (que no Brasil era a língua da lei, a fala do poder, o português castiço) que as pessoas aprenderam a se comunicar, criando essa potência de expressão que é a cultura brasileira. O Brasil mixou três línguas: o português escorrido, horizontal; o africano percussivo, vertical; e a língua dos índios, feita de ventos, de timbres e texturas. Dessa diversidade absurda nasceu uma língua popular que se sofisticou quando virou produto e começou a ser compartilhada, retroalimentada, através do rádio. Essa comunicação, permanente como a própria fala, marca a canção ainda hoje e sempre. Nesse momento imagino Raul Seixas e Paulo Coelho traduzindo a sabedoria hindu no rock brazuca, imagino Cazuza adaptando nossa língua ao blues, imagino Rogério Duprat ou Roberto Mendes musicando poemas do Décio Pignatari ou do Haroldo de Campos na sua língua serial, Vinicius de Moraes traduzindo praticamente todo o jazz tocado para um texto coloquial através das canções do Tom Jobim e do João Gilberto, sem contar os cantos dos escravos, as divisões do Geraldo Pereira, as ladainhas das rodas negras, o coro das procissões..."

4. Como nossa cultura se organiza a partir da canção?

"A canção se coloca na dimensão da cultura. É uma forma de comunicação sofisticada, pois as emoções estão no plano da comunicação. A cultura do século 20 se apresenta como possibilidade de organização das emoções. Eu gostaria de fazer um dicionário das emoções descritas nas canções no Brasil. Tem padrões de emoções para tudo o que você quiser. Você consegue imaginar o Brasil sem a voz do Roberto Carlos? Ele trata de tudo. Já João Gilberto organiza a musicalidade, a grande arte. Você vê como ele muda o jeito de falar. Ele grava coisas parnasianas só que muda a acentuação, e a transforma numa forma coloquial. O Luiz Tatit tem a tese de que toda canção tem origem na fala, que é produto de uma dicção. Compor uma canção, para ele, é procurar uma dicção convincente. Colada à ideia de canção está a minha ideia de cultura, de como você constrói uma nação. Eu sinto muito prazer em me pensar como brasileiro, em me pensar como sendo expressão de uma civilização que pode ter respostas para todos os outros seres humanos. Acho que a existência é a organização de modos de vida. Na África há uma infinidade de dialetos, mas a língua africana veio a ser falada no Brasil. No Brasil, tem essa coisa louca de juntar gente de falas estranhas... Você pega um Camões e tem aquele derramamento, aquela língua fluida. Então vem o africano e coloca um batuque na língua e depois, através da canção, consegue quebrar o discurso da língua escrita, mudando as acentuações, trazendo a fala para língua escrita, pois a língua escrita é poder. O Octavio Paz é quem fala no não-poder da língua falada, e o povo brasileiro transformou a língua falada numa língua poderosa, por essas acentuações, por essas misturas todas. Os caras foram estudar porque na África eles não têm uma língua comum, mas dialetos tribais, a cada cem, duzentos quilômetros, e a linguagem dos tambores que funcionam a dois, três mil quilômetros, através do som. Os estudiosos descobriram que os caras conseguiam ler o som através da mímica corporal. Você consegue imaginar o cara dançando e, através dele, uma linguagem. Com os chineses, com os ideogramas, é mais ou menos isso. A linguagem deles é feita de imagens que se organizam. A linguagem do africano é a linguagem do corpo. Concordo com o Tatit: o compositor popular é um cara que adéqua um jeito de falar a um ritmo e a uma ideia, a uma visão de mundo. A canção popular no Brasil traz uma forma de comunicação tão espantosa que faz com que, em qualquer lugar do país, você escute poesia brasileira no rádio. Isso para além de qualquer valoração moral, pois são pessoas comunicando emoções, sentimentos. Claro que há muito clichê, que acho que são emoções calejadas."

5. Em que momento a canção do Brasil deixa de ser sinônimo de samba?

"O samba era a música da comunicação das pessoas no Rio naquele momento. As pessoas falavam daquele jeito, e as canções multiplicavam aquela fala. E não é só a entonação, como o Tatit fala, mas também a construção dramática. Você pode falar "eu te amo" de muitas maneiras, mas as pessoas só vão entender se elas tiverem o código daquela emoção, daquela maneira de falar, que é o ponto de partida de uma elaboração muito mais sofisticada. O compositor tem que enunciar o problema, desenvolver a trama e resolver o fecho da história, tudo isso em três minutos!"

6. E a chamada vanguarda paulistana?

"Acho que eram artistas super talentosos, vivendo num ambiente de muita informação e de valorização da obra, da criação. Hoje não tem mais importância se você é original. A originalidade perdeu muito valor de mercado (risos). Desde que você faça igual e bem feito, você sobrevive. Naquele momento, naquela geração de Itamar Assumpção e dos londrinenses Arrigo e Paulo Barnabé, eu morava em Pinheiros, em São Paulo. Aquilo foi uma junção de pessoas interessantes, que era o momento do Lira Paulistana. Foi, acima de tudo, um momento de encontro de artistas, e isso aconteceu várias vezes em São Paulo, desde 1922. "Vanguarda Paulistana" foi um guarda-chuvão que arrumaram para potencializar aquilo, que é a tendência de qualquer movimento. E ainda existia naquela época um viés boêmio e romântico nas redações de São Paulo que valorizavam aquela produção independente."

Confira esse vídeo lindo:


Beijos e até a próxima!

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